Fonte: Instituto Humanitas Unisinos
Mídia e Política. Entrevista especial com Maria Helena Weber
IHU On-Line - Como se configura a relação entre política e mídia?
Maria Helena Weber - Como uma relação de dependência e reciprocidade devido à necessidade de os políticos obterem o máximo de visibilidade e assim capturar o eleitor. No outro lado está a mídia, que necessita da política, que é a sua essência editorial.
IHU On-Line - Quem sai ganhando ou perdendo nesta relação?
Maria Helena Weber - Tanto a mídia como a política podem ganhar ou perder. Depende dos interesses de ordem mercadológica, privados ou a defesa da ética. A democracia não existe sem a mídia, e esta não existe sem a informação política e os investimentos.
IHU On-Line - Qual foi o impacto dessa relação nas eleições para presidente deste ano?
Maria Helena Weber - O impacto foi maior do que em outras eleições, pois estava em jogo a discussão sobre a ética, sobre a mudança do país. A sucessão de denúncias e a disputa de classe para a vaga presidencial acirraram a participação da mídia e a sua própria disputa sobre quem detinha o poder sobre a verdade, ou a melhor versão.
IHU On-Line - Que tipo de mensagens subliminares podemos encontrar na grande mídia em detrimento de um candidato ou outro?
Maria Helena Weber - São muitas, mas é possível citar aquelas utilizadas na desqualificação da imagem pública. Os espaços destinados aos candidatos são os mesmos, mas o tom, a edição/ o corte da imagem, a foto escolhida farão a diferença. Um exemplo próximo foi a edição de Zero Hora comparando os casais Yeda Crusius e Olívio Dutra. As fotos apontavam nitidamente a modernidade e proximidade do casal Crusius. Para o casal Dutra restaram fotos antigas (casamento) e inadequada (ambos na praia). Cabe manifestar estranheza já que Olívio Dutra já foi prefeito, governador e ministro e deve possuir muitas fotos em arquivo. As imagens provocarão sensações favoráveis, ou não. Mas o jornal terá sempre justificativas sobre a edição.
IHU On-Line - O que se pode dizer para os futuros jornalistas sobre esse assunto?
Maria Helena Weber - As profissões de comunicação (jornalismo, propaganda e relações públicas) geram competências exigidas pelos poderes. Neste sentido temos de cuidar para não nos deixarmos contaminar por este fascinante poder. Não perder a capacidade de se indignar, de defender a ética.
IHU On-Line - Ainda é possível acreditar que exista uma mídia imparcial?
Maria Helena Weber - Não é possível acreditar em imparcialidade. Mas é possível acreditar na ética que pode justificar a parcialidade.
IHU On-Line - Como fica a ética na relação mídia e política?
Maria Helena Weber - Infelizmente pode ficar submetida a interesses financeiros e privados. Mas também pode virar o jogo e aí temos a mídia em defesa da democracia e da cidadania. A história nos mostra inúmeros exemplos.
Vivendo e aprendendo. O segundo turno da eleição presidencial mostrou mais uma vez que em política os fatos atropelam a todo momento as previsões de estudiosos, analistas e pesquisadores. Ninguém conseguiu prever que, para Lula, o segundo turno ao invés de limão se tornasse limonada.
A vitória de Lula não foi surpresa. O modo como ocorreu, sim. Lula obteve no primeiro turno 46,6 milhões de votos e no segundo turno 58,2 milhões. Ou seja: fez quase 12 milhões de votos a mais. Em contraposição, Alckmin, que tinha conseguido 39,9 milhões de votos no primeiro turno, reduziu sua votação em mais de 2 milhões, ficando com 37,5 milhões de votos. Uma vitória arrasadora de Lula, com uma diferença superior a 20 milhões de votos.
A vitória foi tão incontestável que abafou de vez as tentativas golpistas que setores do PFL, PSDB, da grande mídia (especialmente a revista Veja) e de outros grupos conservadores vinham alimentando. Deixa o homem trabalhar! foi o recado das urnas, em alto e bom som. Ao que tudo indica, esses setores entenderam o recado e farão uma oposição dentro das regras do jogo democrático.
Como explicar essa vitória contundente no contexto de tantas dificuldades para o presidente? Pretendo indicar uma explicação apoiada nos estudos da Ciência Política, indicando as duas teorias do voto mais relevantes.
A teoria da escolha racional (rational choice) argumenta que o voto é fundamentalmente o resultado de um cálculo que o eleitor faz no sentido de averiguar qual candidato/partido melhor defende os seus interesses (do eleitor). Sob esse ponto de vista, a interpretação que se pode fazer é que maioria do povo votou em Lula porque avaliou que sua vida melhorou durante os quatro anos do seu primeiro mandato. O cálculo foi: se minha vida melhorou (em termos de salário, renda, inflação, programas sociais) no primeiro governo, é bem provável que as melhorias continuem no segundo governo, e por isso vou votar na continuidade.
Outra teoria relevante é a do voto emotivo, que defende a idéia de que a maior parte dos eleitores vota sob o impulso de fatores emocionais. Essa teoria parte da constatação de que maior parte dos eleitores não tem familiaridade com a política, não acompanha cotidianamente as notícias sobre a política, não domina o linguajar político e não consegue entender as complexidades dos enfrentamentos entre os partidos. Na hora do voto, esses eleitores baseiam sua decisão na percepção que têm dos candidatos a partir dos meios de comunicação, especialmente a TV, sendo que o marketing eleitoral joga papel decisivo. O eleitor vota no candidato pelo qual “sente” mais empatia e confiança. Por esse viés interpretativo, a vitória de Lula é uma vitória do seu marketing, que o tornou mais confiável, crível e empático do que seu adversário.
Essas teorias não são excludentes entre si, nem excluem outros fatores, como as alianças partidárias. Em síntese, a explicação é esta: na hora do voto, pesa o cálculo que o eleitor faz, mas pesam também os fatores emocionais. Lula foi eleito porque a maioria do povo está convicta de que o seu primeiro governo melhorou a sua vida e também porque o seu marketing eleitoral foi melhor, passando ao eleitor mais credibilidade, confiança e empatia. A razão e a emoção do povo mantêm Lula no Planalto.
João Pedro Schmidt/Professor
Publicado na Gazeta do Sul, Ano 62 - Nº 554 - sábado e domingo, 04 e 05 de novembro de 2006
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